Pixinguinha na imprensa brasileira

Livro reúne conteúdos publicados por jornais e revistas desde a década de 1910

‘Como nasce a musica do povo’

Mesa de bar. Dois homens. Duas folhas de papel. Dois copos. Uma garrafa quase vazia. João de Barro. Alfredo Vianna (Pixinguinha). Vejam o que saiu:

“Ah! Se tu soubesses como eu sou tão carinhoso

E o muito e muito que eu te quero!…

E como é sincero o meu amor

Eu sei que tu não fugirias mais de mim!…

É assim que a musica do povo nasce. Espontaneamente. Sem subterfúgios. Livre de preconceitos solta. O barco é levado pelo vento. Nordeste ou sudeste, elle tem um rumo. Cumpre ao “mestre” manobral-o…

Estão vendo como nasce a melodia que o povo grava nos ouvidos? É assim: Ahi está um exemplo: João de Barro ia passando pela rua onde fica instalada a emissora de Pixinguinha. Despreocupadamente, ia no seu caminho. Era o velho parceiro.

– Vamos tomar alguma coisa ali defronte?

– Vamos…

Foram. Não se arrependeram. Beberam a primeira cerveja. Estava geladinha. Veiu outra. Igual. Mais outra. Viraram menino pequeno quando quer ver o interior dos bonecos. Pediram mais. Foi quando “Ella” passou. Olhou. Viu aquelle montão de garrafas. Não disse nada. Fechou o rosto. Saiu. Dobrou a primeira esquina. Desappareceu dentro da noite… houve uma pausa em tudo. Os ponteiros do relógio como que pararam. Entretanto, pouco a pouco, a “vida” começou a voltar. No principio, muito devagar. O rythmo foi aumentando. Novamente a realidade. Estamos como ainda há pouco nos sentíamos. Quase felizes. Uma recordação, porém ficava de tudo isso. “Carinhoso” Samba estylizado de João de barro e Alfredo Vianna…

Há vinte e cinco annos que elle é cartaz. Um cartaz berrante. Estridente. Luminoso.

Alfredo da Rocha Vianna, mais conhecido como Pixinguinha, é um exímio flautista. Compositor dos velhos tempos. Instrumentador das nossas fabricas de discos.

Carioca. Nasceu a 23 de abril de 1898, em Catumby, na “Zona do Xuxu”. Logar de barulho. Das grandes farras. Da pinga que faz gemer o “pinho”. Da pinga que brota melodias. Encanto do Rio. O melhor logar do mundo de Nosso Senhor Jesus Christo. A fama de Pixinguinha não se limita ás nossas fronteiras. Ha tempos formou uma turma. “Os Batutas”. Eram elles: Alfredo Vianna (Pixinguinha), Octavio Vianna (China), cantava e tocava violão. Morreu, coitado. Ernesto dos Santos (Donga), José Alves (Zezé). Naquelle tempo, tocava bandolim. Hoje, é banjo. Era o secretário do grupo. Nelson Alves tocava cavaquinho. Luiz Silva, bandona e reco-reco e Fenianos, o pandeiro.

De flauta em punho, Pixinguinha percorreu o Velho Mundo. Espiou a Europa. Visitou Praga. Bebeu uma chopada com o Kaiser. Subiu um pouco mais. Esteve no Kremlin. Saboreou um “golezinho” de “vodka” com o Tzar de todas as Russias…

Bruto sucesso. Allucinantes temporadas. Paris, Londres e Berlim applaudiram Pixinguinha.entretanto, elle começou a sentir nostalgia da Patria. Saudades da terra distante. Todas as noites sonhava com a casa da Ignez. Com as madrugadas que de lá se apreciavam. Com o samba que esquentava o sangue daquella gente. Com as cabrochas que dançavam em volta do terreiro…

Foi o diabo! Nunca mais houve alegria. Sumiu a vontade de tocar. Veiu. Quando desceu, ainda no cáes, puxou da flauta. Correu a escada. Saiu esta coisa gostosa:

“Já andei pelo mundo afora

Já andei…

Já andei pelo mundo afora

Já andei…

Já andei… ê ê ê ê ê ê – Já andei…

Já andei pelo mundo afora

Já andei…

Samba enfezado. Improvisos do outro mundo. Meia noite! A hora das almas. Policia! Canna!…

No districto, enquanto a turma esperava o delegado, saiu ainda este samba:

“Samba de nêgo

não se pode frequentá

Só tem cachaça

Pra gente se embriagá!

Eu fui num samba

Em casa de Mãe Ignez…

No melhor da festa

Fomos todos pro xadrez”…

Pixinguinha é um dos maiores da nossa musica popular. Seu nome está ligado aos grandes sucessos musicais. As mais lindas instrumentações que apparecem por ahi saem do seu cérebro. Do cérebro que nunca pára de pensar. Daquella cabeça que mais parece um conservatório de melodias.

[Revista O Cruzeiro, janeiro de 1939]

Revista Cruzeiro 21 janeiro 1939 materia sobre Carinhoso com fotos de Pixinguinha segurando o filho no colo

Pixinguinha: 120 anos pelo olhar da imprensa brasileira

A matéria acima, publicada em 21 de janeiro de 1939 na revista carioca ‘O Cruzeiro’ integra o livro Pixinguinha – 120 anos pelo olhar da imprensa brasileira, Editora Pizindim organizado pela da jornalista Leonor Bianchi, que será lançado em abril, durante as celebrações do aniversário de 120 anos de nascimento do maestro Alfredo da Rocha Vianna Filho, e do Dia Nacional do Choro, data criada em 2000 através de lei federal para marcar a importância do gênero musical considerado o primeiro originalmente brasileiro, e também homenagear o chorão Pixinguinha.

O livro será publicado no site da Revista do Choro http://www.revistadochoro.com ao longo deste ano, a partir de abril. “Será um presente aos que acompanham a revista”, diz a autora do livro e editora da revista, Leonor Bianchi.

O livro reúne uma gama de matérias e fotos publicados em jornais e revistas de todo Brasil entre os anos de 1910 e os dias de hoje. No conteúdo, momentos memoráveis da carreira e da vida do compositor, uma delas sua parceria com Braguinha, que escreveu a letra de ‘Carinhoso’, que este ano completa 100 anos.

Uma nova data para comemorar o aniversário de Pixinguinha

Este ano, o dia em que será celebrado o aniversário de Pixinguinha tem um quê de diferente. Recentemente, pesquisadores encontraram um documento que revela uma nova data de nascimento para o menino Pizindim. Ao invés de 23 de abril, ele teria nascido dia 4 de maio de 1897.

Mais informações

www.imprensabrcomunicacao.wordpress.com

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